quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dialecto

Não sei escrever o que sinto;
não há palavras ou tradução
que exprimam de modo sucinto
o linguajar do coração

Não tenho coragem nem talento
nem verve própria para dizer
o que sinto em todo o portento
do vazio categórico do meu ser

Se o que sinto, então, não pode ser escrito,
e isso me priva de ser erudito...
VIVA A IGNORÂNCIA EM TODO O SEU ESPLENDOR!

Viva o homem que compila, num grito,
todo o desejo que tem de infinito
no infinito desejo de escrever "Amor".

Coimbra, 05/12/2005

Sinopse

Desenho um ponto numa extremidade.
Na outra, vou desenhar mais um.
Chamo "A" ao primeiro (por formalidade)
e "B" ao segundo (por senso comum)

Entre "A" e "B" traço uma recta
para eliminar todo o espaço nu;
o ponto "A" sou eu, e a minha meta
é o ponto "B" (que és tu)

Mas penso, porém, nas intersecções
que nos desviam das nossas direcções,
dos nossos objectivos, das nossas metas...;

Diz-me, amor, que findei meus versos:
não seremos ambos pontos dispersos
que desejam unir-se por linhas rectas?

Coimbra, 29/12/2005

Melopeia

Versos meus mais não são que ruído,
ginetes caídos sem espada ou corcel
que vagueiam no ar, de ouvido em ouvido,
encontrando exílio na palidez do papel.

Cantatas fúnebres! Não passam de gritos:
são ais de dor e suplícios esquivos
que ecoam em linhas pespontadas de escritos,
tingidas por mares de tinta aflitivos.

Versos são lamentos vindos de alguém,
(cada quadra é um brado vazio e doente)
que gritam a sós por não haver ninguém
que escreva a gritar tudo aquilo que sente.

Coimbra, 21/12/2005